Reciclar Material de Embalagens com um Componente de Alumínio

É de conhecimento dos meus leitores regulares que eu me oponho fortemente a qualquer uso dos chamados materiais de embalagem biodegradáveis ou compostáveis. Primeiramente, por falta de oxigênio, nenhum material de embalagem se degrada em aterros sanitários e as muito poucas instalações industriais de compostagem muitas vezes se recusam a aceitar materiais de embalagem em seus processos. Além disso, vamos encarar, não há materiais de embalagem feitos de um único componente. Sempre há revestimentos ou aditivos e frequentemente mais do que uma camada de diferentes materiais.

Na minha visão, existe apenas uma resposta à nossa montanha crescente de materiais de embalagem pós-consumo. A tecnologia tem de nos ajudar a desenvolver sistemas de reciclagem, de preferência os que reciclam “do berço ao berço”. E mais e mais destes sistemas estão chegando à maturidade, enquanto outros estão em desenvolvimento para preencher os espaços ainda não-cobertos.
Hoje eu quero discutir as embalagens com um elemento composto de alumínio, ainda vistas como não recicláveis por muitas pessoas e consequentemente indesejáveis.

Parece haver alguma confusão e equívoco sobre a reciclagem de embalagens que possuem elementos de alumínio. Em outras palavras as bolsas (pouches) feitas a partir de uma combinação de plástico/alumínio ou as famosas caixas de bebidas feitas de papelão/alumínio/plástico.
É preciso cerca de 95% a menos de energia para produzir alumínio secundário através de operações de reciclagem, em relação ao que é consumido na produção de alumínio primário a partir da bauxita. Esta é uma das principais razões da importância de se recuperar os componentes de alumínio a partir de materiais de embalagem e justifica o desenvolvimento de sistemas de reciclagem sofisticados.

Vamos começar com a reciclagem de embalagens flexíveis, um formato de embalagem com um imenso potencial de crescimento. Bolsas têm muitas vantagens, tais como o peso leve, resultando em economia nos custos de material e de transporte, mas devido ao conteúdo (alimentos) muitas vezes têm uma camada de alumínio e, consequentemente, são ditas como não recicláveis. É óbvio que os proprietários das marcas estão ansiosos para ver isso mudando já que querem colocar um “logotipo reciclável” nas embalagens para reforçar suas credenciais de sustentabilidade.

A afirmação acima, sobre as embalagens flexíveis com um componente de alumínio não serem recicláveis, está correta. Todavia, as evoluções recentes podem trazer essa condição ao fim.

O processo de reciclagem Enval
A Enval, uma empresa sediada no Reino Unido, um spin-off da Universidade de Cambridge, está buscando comercializar seu know-how patenteado que diz oferecer uma rota de reciclagem genuína para embalagens laminadas de plástico/alumínio que, até hoje, não poderiam ser recicladas.

Com os recentes investimentos garantidos a partir de um consórcio de investidores, incluindo a Cambridge Enterprise, Cambridge Capital Group e Cambridge Angels e com o apoio de parceiros industriais, como a Kraft Foods e a Nestlé, a Enval espera iniciar a sua primeira usina comercial em meados deste ano.

A matéria-prima viria inicialmente a partir de resíduos industriais gerados na cadeia de fornecedores de embalagens, a partir de fontes tão variadas quanto os fabricantes de filmes laminados, conversores de embalagens até mesmo fabricantes de alimentos. A empresa, mais tarde, olhará para resíduos de origem pós-consumo.

A bolsa stand-up refechável da Sprout Organic Baby Food tem uma estrutura multi-camada (PET/alu foil/OPA/PP). Como as bolsas não podem ser recicladas, a Sprout realizou parceria com a TerraCycle para recolher as bolsas pós-consumo, mantendo-as fora do aterro e reciclando em outros produtos de consumo tais como sacolas

A tecnologia patenteada Enval oferece uma rota de reciclagem genuína para embalagens laminadas de plástico/alumínio. A tecnologia separa os materiais componentes, extraindo alumínio 100% limpo pronto para introdução na cadeia de alumínio secundário e hidrocarbonetos que podem ser utilizados como combustível ou matéria-prima química.

O processo Enval baseia-se num processo chamado de microondas induzido por pirólise que permite que os resíduos sejam tratados em ausência de oxigênio. Em oposição à incineração, a pirólise ocorre sem a combustão do material (neste caso os resíduos), evitando a produção de gases de efeito estufa ou emissões tóxicas. Além disso, uma vez que o processo da Enval utiliza energia de microondas como fonte de calor, utilizando eletricidade renovável ou verde, o processo pode ser considerado carbono neutro.

Reciclagem de embalagens cartonadas
É certamente verdade que muito do papel usado em caixas de bebidas (Tetra Pak, SIG Combibloc, Elopak etc) é de fibra virgem, recuperado em fábricas de papel através de um processo de de-polpação. Mundialmente, existem algumas centenas de fábricas de papel que reciclam embalagens de bebidas pós-consumo, recuperando parte das caixas de papelão. A fábrica de papel que recicla a maioria das caixas é a alemã Papierfabrik Niederauer Mühle GmbH, reciclando cerca de 100.000 toneladas de embalagens a cada ano – o equivalente a 500 milhões de embalagens cartonadas.

No entanto, resta um resíduo de plástico/alumínio que não é e não pode ser processada pela fábrica e é atualmente depositado em aterro ou incinerado. Mas isso é desnecessário e um desperdício de alumínio bom de primeira qualidade.

Eu suspeito que a partir desta prática, vem a crença que embalagens de bebidas cartonadas não podem ser recicladas. Além disso, os municípios com coleta seletiva de lixo implementada, proíbem seus habitantes de colocar as embalagens cartonadas na pilha de papelão, usando o argumento de não serem recicláveis.
Mas há que ser dito que já reciclamos embalagens cartonadas há anos.

Em 2009 eu escrevi sobre a sofisticada primeira usina de reciclagem para Tetra Paks em Piracicaba/Brasil, que chega muito perto do princípio “berço ao berço”. A joint-venture entre a Alcoa Alumínio, Tetra Pak, Klabin e TSL Ambiental, usa a inovadora tecnologia de plasma, que permite a separação total de componentes de alumínio e plástico das embalagens. O processo de plasma permite o retorno como matéria prima para a cadeia produtiva de todos os três componentes das embalagens de papelão. Não é um ciclo perfeitamente fechado ou de reciclagem do berço ao berço, pois esses três componentes reciclados não são reutilizados em novas Tetra Paks.

E a tecnologia evolui. No fim do ano passado, a Stora Enso, inaugurou sua nova fábrica em Barcelona, Espanha, sendo a primeira a empregar a tecnologia chamada de pirólise que permite a recuperação completa de plásticos e de alumínio usados em embalagens cartonadas.
O laminado de plástico/alumínio recuperado de embalagens de bebidas é separado pela nova tecnologia de processamento. Isto significa que tanto a fibra quanto o alumínio podem ser totalmente reutilizados e o plástico utilizado para gerar energia no moinho. A fibra recuperada é utilizada para a produção de White Lined Chipboard no local.

O processo de pirólise, refinado em parceria com a Alucha Recycling Technologies, começa com o polilaminado (mistura de plástico/alumínio), que foi separado do papelão de caixas de bebidas numa câmara de polpação, que funciona como uma máquina de lavar.
Este resíduo é secado e quebrado em pequenos pedaços antes de passar pelo processo de pirólise, que consiste em expor o material à 400o C de temperatura em uma câmara livre de oxigênio.
O calor faz com que o plástico evapore enquanto o alumínio permanece. O gás evaporado pode ser utilizado para gerar eletricidade, enquanto o alumínio, que permanece não oxidado, pode ser reciclado e re-fundido sem problemas para ser usado em novos produtos de alumínio.

As características distintivas do novo sistema são que, ao contrário de uma tecnologia anterior que falhou por razões econômicas, usada na fábrica de Corenso Varkaus na Finlândia, a nova pirólise opera a uma temperatura mais baixa (400 ºC contra quase 800 ºC) e opera em uma câmara livre de oxigênio.
A câmara de Corenso Varkaus tinha de 10-15% de oxigênio, o que gera óxido de alumínio, que vale muito menos do que o alumínio puro.

O processo gera alumínio valioso e energia suficiente, através do plástico evaporado, para proporcionar 10% dos requisitos de energia na fábrica de papel em Barcelona. E com temperaturas mais baixas, significa que pode ser alcançado com uma conta de energia mais baixa.

Dr. Carlos Ludlow-Palafox

Com a ajuda e assistência técnica da Tetra Pak, a Stora Enso começou a operar o processo de pirólise no verão passado, depois de já ter executado um piloto com uma capacidade anual de 1.000 toneladas de embalagens cartonadas. As máquinas recém-instaladas permitirão que a Stora Enso mude para produção em escala industrial neste ano, com capacidade para processar 30.000 toneladas de embalagens cartonadas pós-consumo anualmente.

A Stora Enso afirma que a fábrica de Barcelona recebe atualmente caixas pós-consumo de leite e de suco de Espanha, França, Portugal e Reino Unido.

Vimos que a pirólise está no centro em ambos os processos, tanto da tecnologia Enval para embalagens flexíveis quanto da fábrica da Stora Enso em Barcelona para embalagens cartonadas. Agora há uma coisa interessante, no centro das duas empresas, tanto a Enval no Reino Unido quanto a Alucha em Barcelona, que refinou a tecnologia para a Stora Enso, está o Dr. Carlos Ludlow-Palafox, o técnico responsável pela tecnologia da pirólise. Carlos Ludlow-Palafox se formou em Engenharia Química pela Universidade Ibero-americana na Cidade do México em 1996. Ele ganhou um doutorado com distinção da Universidade de Cambridge para a tecnologia da pirólise, onde ele, agora como Pesquisador Associado de Pós-Doutorado, em conjunto com o Professor Howard Chase, realiza pesquisas sobre a pirólise de microondas para plásticos e de resíduos contendo plástico.

Concluindo, podemos dizer que o componente de alumínio em todas as diferentes embalagens desde bolsas até caixas de papelão, agora pode ser recuperado e usado como novo na próxima geração de embalagens.

Texto revisado por Fabiana Paciulo

6 Respostas para “Reciclar Material de Embalagens com um Componente de Alumínio

  1. Somos fabricantes de placas e telhas, composta de 25 % Alumínio e 75 % plásticos, oriundos de tubos de creme dental, de aparas industriais, creio que essa foi unica solução encontrada pela ECOTOP, para retirar esse produto do aterros sanitários. Ha mais de 10 anos produzindo produtos SUSTENTÁVEIS.
    Luiz Fürst

  2. Senhores gostaria de agradecer todos, pelo apredizagem que estou tendo com voces. tud de bom e boas ideas sempre….

  3. Meu nome e Laura Sanchez Sanchez, http://www.nathuralgroup.com.br, laurass@nathuralgroup.com.br, tenho uma empresa focada no desenvolvimento e fabricação de impermeabilizantes a base de agua, que tem como objetivo substituir laminações com plásticos e alumínios, parafinados e plastificados sobre papeis para as mais diversas finalidades que exijam barreira umidade, gordura, temperatura e selabilidade sem utilização e polímeros e parafinas, coloco-me a disposição para maiores esclarecimentos.

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